A frequência de certas palavras e expressões, na tv principalmente, vai nos aborrecendo dia a dia, e sem querer, vamos colecionando coisas que são ditas para não dizer nada. Uma delas é o meio que... É, assim mesmo, com pontinhos, pois meio que… é expressão que meio que pode ser usada por qualquer um sobre qualquer coisa, quando a pessoa está meio que... confusa, ou meio que... sem graça, ou meio que não quer se comprometer, ou seu tempo está meio que curto, ou a paciência meio que esgotada.
Me lembro que há tempos a expressão para começar a falar era, invariavelmente: Seguinte… Por exemplo: o entrevistador pergunta quando chegou de Salvador, e o cantor falava: “seguinte... cheguei ontem”. A origem disso está numa expressão muito usada pelo pessoal do Pasquim da época, “o negócio é o seguinte”, que iniciava qualquer coisa a ser dita ou escrita. Agora, estamos na era do “então...” Podem reparar, já faz tempo que todo mundo na tv fala “então...”, e por extensão todo mundo na rua, no escritório, na casa da mãe Joana, fala “então...”
No meu tempo se chamava isso de “muleta” - um apoio para dar ao cidadão tempo de pensar e responder à pergunta. Mas o abuso disso, e o fato de coisas assim serem altamente contagiosas, acaba por nos causar sérios transtornos psíquicos – ou pelo menos este é o meu receio.
Se não, vejamos: há algum tempo, não havia declaração na tv – e depois, claro, nas ruas – que não começasse por “com certeza...” Isso depois de um breve reinado do “afinal...” E quando a coisa não era certa, vinha o substituto: “fala sério...”
Temos também vocábulos que servem para tudo. “Questão” é um deles. O governador diz: “É preciso avançar na questão do transporte público” - e pronto, está dito. O Judiciário se defronta com a questão da obrigatoriedade de mandar para casa presos perigosos. A prefeitura observa a questão dos engarrafamentos, que junto com a questão dos garotos malabaristas nos sinais, e a questão das obras, está trazendo para a Avenida das Américas uma questão de inferno diário.
Mas nada supera o “meio que...”. Tanto que vou encerrando porque estou meio que enjoada com tudo isso, pretendo meio que tomar um banho e depois meio que lanchar, pois que me encontro meio que faminta. Meio que até logo.
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