sábado, 9 de julho de 2011

Morri

Morri. Meu último pensamento enquanto estava viva foi: “Por que não tinha em casa, bem à mão, uma pistola, revólver ou mesmo uma espingarda de chumbinho? Eu teria me defendido, teria com certeza espantado os caras assim que entraram no meu jardim...”

Por que me deixei seduzir pela ladainha vigente, difundida alegremente pela tv, que assegura que desarmando “todo mundo” os bandidos que portassem armas seriam facilmente pegos? E que uma cidade, estado ou país se veria livre da violência tão logo os cidadãos de bem entregassem suas armas de defesa? Que as estatísticas seriam bem mais “amigáveis” se “todos” ganhassem uma merreca para entregar suas armas de fogo às autoridades policiais?

Cedi às pressões do bom-mocismo, do politicamente correto, da “cidadania”. Nem me lembrei de perguntar por que, nos países onde a posse de uma arma é um direito, como os EUA, os índices de criminalidade são muito mais baixos do que no Brasil? Ou por que nos países onde criminosos são detidos, julgados, condenados e presos, onde não há distorções no trato com as leis, onde a Lei é mantida, temida e aplaudida, os criminosos pensam duas vezes antes de cometer um homicídio?

Dois dos caras eram “de menor” - o que de antemão, no nosso País, lhes dá grande liberdade para cometer qualquer tipo de delito, já que não vão pagar pena alguma – a não ser ficar no ócio durante algum tempinho em uma dessas repúblicas de jovens bandidos que foram apelidadas de “fundação Casa” (só se for a da Mãe Joana, né?).

Os caras chegaram arrebentando, chutando a cachorrinha e esganando a pobre, pegando esta velha pelo pescoço, gritando “onde tá a grana”, batendo, dando socos, porrada braba, até que um deles, vendo que não havia dinheiro, tirou do cinto uma 9 mm e...

Meu último pensamento não me dá nenhuma chance de ir para o Céu. Meu último pensamento me remete diretamente ao inferno: “Por que entreguei a arma que seria minha defesa? Eu poderia ter dado um teco nesses bandidos logo que passaram do portão (que pularam, sob os latidos frenéticos da boa cachorrinha Donna). Mesmo que ainda assim eles continuassem o assalto, eu pelo menos teria a alegria de não morrer sozinha, mas levar um, dois ou os três criminosos comigo”.

Mas morri. Os dois menores, “crianças que podem ser recuperadas”, confessaram e foram para a tal “Casa”, onde terão cama, comida, roupa lavada, tv e até mesmo drogas à vontade. O outro, maior, já tinha “várias passagens” pela Polícia, já tinha sido preso, e estava solto para passar um feriado com a “família” (o bando de criminosos do qual faz parte, com certeza). Este vai pegar 30 anos, vai cumprir 5 anos – se não sair antes num feriado qualquer... para matar outra velha – e desaparecer.

sábado, 2 de julho de 2011

Se piorar, internem

Acho que a formação acadêmica em Letras, e os (muuuuitos) anos de jornalista me subiram à cabeça – não no sentido formal, mas metaforicamente. É que dei pra ficar revisando até mesmo textos falados da tv. A coisa é braba. É feita de imediato, sem sentir: quando por exemplo ouço o apresentador ou repórter ou celebridade falar que traz “novidades do bastidor”, meu rapidíssimo pensamento emenda: “bastidores!” e algumas vezes ainda aproveita pra xingar: “bastidores, seu analfabeto!”.

Uma coisinha que me deixa cabreira é a mania de falar “e também”. Ora, “e” já quer dizer “também”. Fica esquisito quando a gente ouve “o casal Tom Cruise e também Kate Holmes...”, ou “ele foi indiciado por roubo e também fraude...” Não quero comprar briga com os paulistas - looonge de mim! he he he! - mas como acompanho tv há tantos anos notei que a coisa começou quando a Globo praticamente se mudou pra São Paulo, pra fazer raiva ao Brizola. Até ali, a importância da tv de São Paulo era mínima (quase só local), e quem tinha importância nacional era a Globo (com respingos de audiência para o Silvio Santos; ele, não a tv dele).

Quando parte do jornalismo da Globo foi pra lá, é claro que as redações se encheram de paulistas. Com isso, acabou por prevalecer o modo gramatical paulista. E como para eles o “a, e, i, o, u” é pronunciado “a, ê, i, ô, u” (contra tudo e contra todos, ou seja, contra o que se pronuncia no resto do país), foi-se gradualmente integrando à língua falada na tv expressões, gagues e sotaques totalmente paulistas. Nada contra, quando não se evidencia um erro crasso. Como “bastidor”, que na verdade é um equipamento composto de dois arcos, que se usa para fazer bordados, em lugar de bastidores (lugares ou fatos paralelos à cena teatral, ou de tv). O termo é usado ainda para curiosidades que o público não conhece – numa interpretação livre do significado literal e original do vocábulo.

Tem mais: a mania de começar qualquer frase com “então!”; o uso incorreto da palavra “literalmente”; a repetição irritante da expressão “com certeza”; a utilização já quase automática de coisas como “tipo assim” e “meio que”.

Bem, imaginem o meu sofrimento: fico a corrigir cada um dos textos mal falados - e também os mal escritos nos letters da telinha. Mas prometo: se a coisa piorar, eu mesma peço aos meus filhos pra me internar. Desde que não esqueçam de colocar a tv e a gramática na minha bagagem para a Casa de Repouso (manicômio).