Acho que a formação acadêmica em Letras, e os (muuuuitos) anos de jornalista me subiram à cabeça – não no sentido formal, mas metaforicamente. É que dei pra ficar revisando até mesmo textos falados da tv. A coisa é braba. É feita de imediato, sem sentir: quando por exemplo ouço o apresentador ou repórter ou celebridade falar que traz “novidades do bastidor”, meu rapidíssimo pensamento emenda: “bastidores!” e algumas vezes ainda aproveita pra xingar: “bastidores, seu analfabeto!”.
Uma coisinha que me deixa cabreira é a mania de falar “e também”. Ora, “e” já quer dizer “também”. Fica esquisito quando a gente ouve “o casal Tom Cruise e também Kate Holmes...”, ou “ele foi indiciado por roubo e também fraude...” Não quero comprar briga com os paulistas - looonge de mim! he he he! - mas como acompanho tv há tantos anos notei que a coisa começou quando a Globo praticamente se mudou pra São Paulo, pra fazer raiva ao Brizola. Até ali, a importância da tv de São Paulo era mínima (quase só local), e quem tinha importância nacional era a Globo (com respingos de audiência para o Silvio Santos; ele, não a tv dele).
Quando parte do jornalismo da Globo foi pra lá, é claro que as redações se encheram de paulistas. Com isso, acabou por prevalecer o modo gramatical paulista. E como para eles o “a, e, i, o, u” é pronunciado “a, ê, i, ô, u” (contra tudo e contra todos, ou seja, contra o que se pronuncia no resto do país), foi-se gradualmente integrando à língua falada na tv expressões, gagues e sotaques totalmente paulistas. Nada contra, quando não se evidencia um erro crasso. Como “bastidor”, que na verdade é um equipamento composto de dois arcos, que se usa para fazer bordados, em lugar de bastidores (lugares ou fatos paralelos à cena teatral, ou de tv). O termo é usado ainda para curiosidades que o público não conhece – numa interpretação livre do significado literal e original do vocábulo.
Tem mais: a mania de começar qualquer frase com “então!”; o uso incorreto da palavra “literalmente”; a repetição irritante da expressão “com certeza”; a utilização já quase automática de coisas como “tipo assim” e “meio que”.
Bem, imaginem o meu sofrimento: fico a corrigir cada um dos textos mal falados - e também os mal escritos nos letters da telinha. Mas prometo: se a coisa piorar, eu mesma peço aos meus filhos pra me internar. Desde que não esqueçam de colocar a tv e a gramática na minha bagagem para a Casa de Repouso (manicômio).
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