quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

O tom é tudo

Tá bom, as forças policiais e militares fizeram, ao que parece, um bom serviço no Rio, apesar dos mais de 300 bandidos que escaparam – pelo menos é esta a opinião da população carioca, de modo geral. As tvs mostram todos os dias novas apreensões de drogas e armas. Não se viu mais tiroteio no Alemão – embora tenha havido rebu armado em outras favelas. Pessoas paradas pela reportagem parecem estar satisfeitas.

Digo parecem porque tenho visto que quando as pessoas custam um pouco a falar, os repórteres imediatamente passam a induzir respostas – afinal, tempo é tudo na tv, né? “Como o senhor vê este momento de paz? Está sentindo sensação de liberdade? Está achando que finalmente veio a paz na comunidade?” - assim se apressa a resposta do morador, ainda indeciso entre falar ou não, porque, afinal, ninguém sabe o dia de amanhã.

É, ninguém sabe... mas as tvs, os políticos, os militares e, claro, o governador, falam como se soubessem. O que está deixando o telespectador meio cabreiro, aposto, são estes elogios rasgados, esta disposição de agir como “escada” para que as autoridades apareçam bem na fita, estes salamaleques e louvações a todo momento. Sim, se fosse só um pouco a gente segurava, mas não, é a toda hora, por qualquer notíciazinha. E há ainda as matérias de repercussão, pautadas em cima do binômio crianças apavoradas & adultos bonzinhos e carentes.

Ontem, chegou-se ao suprassumo da babação de ovo mixada com a ignorância completa do que são as pessoas e as comunidades cariocas. Ao noticiar a chegada de doações, a repórter comovida disse: “Essas pessoas agora terão comida farta!!” Perecia que estava na Etiópia! Estão confundindo as paradas: ali mora gente que trabalha e geralmente tem tv a cabo, dvd, computador, e faz questão que suas meninas se vistam na moda, como qualquer família, e moram no morro porque lá têm tudo sem pagar quase nada – mesmo que para isso tenham de conviver com bandidos, o que não é culpa deles, pelo menos não totalmente.

Digo não totalmente porque, como se viu na tv, através de denúncias de moradores é que se apreendeu uma fábula de drogas, armas etc. Essas pessoas já sabiam disso há muito tempo, né não? Mas nada mais interessa: o Rio está livre, salve o Rio! Só tenho uma preocupação: o Rio precisa ir ao psiquiatra, psicanalista, psicólogo, enfim, tem de fazer terapia coletiva urgente. Da maneira que vem reagindo, indo da depressão à euforia em menos de dez segundos, como uma Ferrari de 0 a 100 km, o diagnóstico do Rio - a cidade, as tvs, os jornais, as autoridades, as crianças – bem, não sou especialista, mas ouso dizer: o Rio é bipolar!

Um comentário:

  1. Eita, e põe bipolar nisso! Ainda outro dia merrrmo ax parada num era sinixtra? Mas mesmo com a mídia toda repetindo que nem disco quebrado a euforia em escala geométrica, eo Padilha provavelmente já pronto pra engatar "Tropa de Elite 3, 4 e 5",tenho certeza de que muita gente tá bastante pé atrás, sem tanta purpurina e confete. Vamos ver, né? Já começaram as denúncias de abusos de policiais, que obviamente não serão apuradas...Espero que a violência diminua, sim, mas isso só vai se firmar de fato se o Cabral tiver esse peito todo que tá estufando agora pra fazer uma devassa na própria polícia, que agora é "heróica" - inda outro dia era a mais corrupta do Brasil...mudou da água pro vinho??? Talvez, né? Tudo é possível, já que parece que até o Fluminense vai ser campeão brasileiro...vê se pode!!!!

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