quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Falado ou escrito

Como já escrevi algumas vezes mostrando qualidades da Tv Record, e criticando severamente a Globo – coisa que vou fazer mais uma vez a seguir -, quero esclarecer que: 1 – pretendo criticar severamente também a Record; 2 – com certeza terei oportunidade de elogiar enfaticamente a Globo; 3 – praticamente não há o que falar das outras emissoras, acuadas pela baixíssima audiência, com programação irregular e bêsta (exceção feita à Band, que ainda respira). Falo aqui com os leitores como uma pessoa que vê tv, diariamente, e gosta de tv, e sofre com os pequenos e grandes defeitos da tv. Dito isso, vamos ao que interessa.

Deixemos de lado por um momento as imagens – a base de tudo na televisão. A impressão que se tem, ao acompanhar o noticiário, é: a Globo faz jornalismo escrito; a Record faz jornalismo falado. Vejam a postura dos apresentadores, por exemplo, do Esporte Espetacular – excelentes profissionais, diga-se, e enfatize-se que não é a qualidade deles que está em jogo. Mas percebemos um texto por trás de tudo o que dizem - um texto escrito. O que acaba por atrapalhar os excelentes apresentadores (mesmo que sejam eles mesmos a escrever o texto).

Vejam este exemplo: a apresentadora fala de alguém e quer dizer – porque está escrito - “ninguém menos do que Fulaninho!” Acontece que ninguém fala assim. É texto escrito – portanto, para se ler. Ela está lendo em voz alta para nós, e aí... vem o escorregão: “ninguém mais, menos... mais do que Fulaninho”. E aí você percebe que ela não está falando com você, mas lendo algo que é pura literatura. Dá assim um certo mal-estar no espectador, como quando você conversa com um erudito, uma pessoa super-culta, e a pessoa só de sacanagem começa a proferir palavras que você não conhece, ou repete frases, citações dos clássicos ou dados que você, pessoa comum, não domina – e ainda faz isso tudo com um nariz bem empinado. É mais ou menos essa a nossa sensação ao passar por este momento – sensação mesmo, algo não consciente, mas que incomoda... e pode acabar por nos levar ao controle remoto.

Já na Record você vê que às vezes o apresentador se enrola, mas se enrola porque está se comunicando com você, na maioria das vezes ao vivo. Claro que há um texto que ele está lendo, então qual a diferença? Por que perdoamos imediatamente a enrolação do rapaz – ou moça, tanto faz? Porque sentimos – novamente, é uma sensação, não consciente – que o apresentador não errou porque não leu direito um texto empolado e pretensioso (porque quer ser literatura). Ele escorregou porque está lendo, mas também está improvisando, está conversando com você, está te descrevendo um fato como uma pessoa qualquer descreve. Sem pose, sem nariz pra cima, sem pretensão.

Como no rádio – que já demonstrou ser, talvez, o melhor veículo de comunicação, o de maior alcance, o mais autêntico, presente, simples e direto -, o jornalismo da Record é falado. E falado com simplicidade, dando chance a que as imagens ganhem projeção, ganhem status, sejam imprescindíveis à compreensão do que se está noticiando – e com isso mostrando como e porque a tv não compete com o rádio, mas o complementa. Isso, claro, quando não se transforma em puro exercício de vaidade ou demonstração de erudição ou ainda apenas literatura, e não jornalismo.

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